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Claudia Pucci
Diário de Bordo - International Residency – Royal Court
Descubra o que é fazer parte do grupo de dramaturgos do Royal Court em Londres através do Diário de Bordo de Cláudia Pucci, selecionada pelo British Council para estar entre eles durante três semanas.

Primeira semana

Por dentro do Royal Court

Estou sentada em uma mesa em frente a Sloane Square. Da janela, posso ver os letreiros do Royal Court – é realmente uma visão interior de tudo. Pode-se ver, também, parte de uma rua londrina.

É a minha primeira vez em Londres, uma cidade que consegue ser, ao mesmo tempo, moderna e antiga – imaginem, é uma terra onde ainda há uma rainha! Não tem a modernidade cafona e ostensiva das grandes metrópoles “americanizadas”. De certa forma, Londres resiste a tudo isso, e consegue manter um glamour com seus ônibus vermelhos de dois andares e músicos tocando maravilhas nos túneis de metrô. Em um senso de direção totalmente diferente. E crianças de três anos de idade sendo empurradas em carrinhos de bebê. E cartazes por todos os lados dizendo o que você deve fazer, e o que não deve fazer. E, de fato, me parece que aqui se cumprem as regras, e a pontualidade não é um mito. E também uma certa tensão que navega entre a forma educada de ser e um vulcão interno que parece pronto para entrar em erupção a qualquer momento – talvez, por isso, o teatro seja tão importante por aqui. É um lugar onde o grito é permitido.

Essa foi a primeira semana da residência. Estar aqui, em um teatro lendário, já é uma experiência surpreendente por si. Imagine se ela é somada pelo fato de aqui estarmos entre 16 pessoas de 15 países diferentes: Cuba, Slovenia, Suécia, Áustria, Finlândia, Portugal, México, Argentina, Romênia, Nigéria, Índia, Kenia, Alemanha, Irã e, of course, Brasil. É uma babel maravilhosa e, para a minha alegria, o grupo realmente tem interesse pela cultura alheia, e todos facilitam a comunicação.

Nessa primeira semana, o que mais me surpreendeu foi o dia dedicado às “Perspectivas Internacionais”, quando cada um, de porte de um objeto que representa um aspecto da realidade do seu país, fez um relato da sua situação. Nesse dia ficou claro que, apesar de tantas diferenças, todos estão sendo negativamente afetados pela globalização, pelo poder da mídia de massa, e mesmo os países que não sofrem de problemas sociais profundos estão passando por uma profunda crise existencial. Por outro lado, muito se falou da busca de novas perspectivas, e a internet foi citada como uma das formas de subversão. Esse dia me tocou especialmente, porque me permitiu ver, do outro lado do oceano Atlântico, não apenas o meu próprio país, mas a situação da minha América Latina, representada também por Cuba, Argentina e México. Por outro lado, consegui ver, através dos olhos dos colegas dramaturgos, a realidade de países que para mim não passavam de uma mancha no mapa mundi. Nesse dia percebemos o abismo que havia entre a imagem folclórica que fazemos de um país e sua própria realidade. Não esperava ouvir que a principal característica da India (que para mim tem uma conotação tão espiritual) é a cultura da celebridade, e que as pessoas pagam para sair no jornal “Bombaim News”. Ou sobre a esquizofrenia dos países africanos colonizados, divididos entre o glamour inglês e sua própria tradição. Saber que Abbas Kieroestami foi censurado em seu próprio país, Irã, porque uma das personagens de seu filme “Dez” era uma prostituta. Saber que a nova geraçao na Alemanha ainda carrega uma culpa história pelo nazismo, como se fossem herdeiros de Hitler… E também ouvir histórias de países outrora colonizados que ainda buscam sua identidade, países onde tudo parece estar bem, mas onde pessoas necessitam do álcool para expressar alegria, países onde pessoas precisam do álcool para esquecer a tristeza. É incrível perceber como apesar de tantos sistemas políticos diferentes, temos problemas tão parecidos. E todos temos problemas. E em vários casos, não são solucionados pelo dinheiro.Desse dia em diante, conversamos bastante sobre o conceito de um teatro contestador, que está em busca de algo novo. Cada um descreveu, em três palavras, o que quer provocar com o seu ofício de dramaturgo, o que queremos dar à platéia, e esse momento rendeu ótimas discussões. Um teatro que desestabiliza, que sensibiliza, que desafia e faz pensar, que leva pessoas a regiões desconhecidas, esse foi o denominador comum.

Teatro full time. Quase uma peça por noite. Andar pelas ruas de Londres, Soho, Piccadily, ouvir a babel de idiomas que traduz essa cidade. Ficar sentado nas escadarias do Royal Albert Hall (duas em cada três coisas por aqui são Royal something) cantando e falando bobagem enquanto o sono não chega.

Conhecer pessoas que, apesar de pertencerem a lugares tão distintos, em uma semana já são capazes de criar uma nação em comum, falar de seus problemas e sonhos.Para mim, é uma profunda experiência de vida, com uma intensidade tão alucinante que me lembra o próprio palco, cuja matéria é a ação concentrada. É como estar em uma montanha-russa tomando chá inglês e contemplando, do alto, a nossa casa.

Essa semana começa com Harold Pinter, um dos maiores nomes da damaturgia inglesa. Por isso, termino esse relato com um novo poema de sua autoria, publicado no dia 23 de julho de 2004, no jornal “The Guardian”:

To My Wife

I was dead and now I live
You took my hand
I blindly died
You took my hand
You watched me die
And found my life
You were my life
When I was dead
You are my life
And so I live
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