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Pensando hoje sobre o passado, a impressão é que a Contemporary Music Network (Turnês CMN) do Arts Council da Inglaterra foi lançada no momento perfeito: o alvorecer da era pós-moderna. O início dessa mudança cultural – que o geógrafo David Harvey chamou de “mudança na maneira de sentir” – já foi relacionado a vários eventos específicos (como a demolição dos prédios modernistas do Pruitt-Igoe, em Chicago) ou a períodos de tempo mais flexíveis (como a crise do petróleo do início dos anos 70). Porém, eu me contentaria em ficar com novembro de 1971, data em que o The Matrix saiu na primeira Turnê CMN com um repertório que incluía modernismo musical stricto sensu (Birtwistle e Berio), música antiga (Frescobaldi) e jazz (do saxofonista Tony Coe).
É claro que você talvez já tenha assistido a algumas apresentações dessa natureza em Londres ou em uma escola de música. Mas o que Annette Morreau e John Cruft do Arts Council idealizaram e colocaram em prática foi uma série de turnês devidamente financiadas em regiões do país que raramente conseguem escutar uma ampla variedade de música contemporânea: Hull, Coventry, Portsmouth, Bristol, Aberdeen. Mais de três décadas depois, sob a orientação de Beverley Crew e Shu-Fang Wang, que se dividem como produtoras, as Turnês CMN continuam indo muito bem. Seu objetivo central continua sendo (citando o site): “Máximo acesso a música contemporânea de alta qualidade”. É notável que, ao contrário de muitas outras iniciativas prestigiosas em artes, as Turnês CMN nunca tenham mudado de nome ou reformulado seu estilo, nem sido descentralizadas ou racionalizadas.
Para muitos ouvintes, compositores e artistas, a Network é uma salvação cultural. Desde o início, colocou-se uma ênfase explícita na qualidade, com cachês decentes para os músicos e bom planejamento de apoio técnico. O público mais audacioso do interior pôde escutar música de padrão internacional de uma amplitude e ousadia que os empreendedores locais não sonharam em poder custear. A CMN oferece as apresentações de suas turnês a patrocinadores por um custo bastante subsidiado e inclui diversos “bônus” como parte do pacote, tais como postais, cartazes, orientações e inclusão na campanha nacional de propaganda e de relações públicas da turnê, tudo gratuitamente.
A curadoria de Morreau da Network ao longo de 17 anos deu o tom do projeto com algumas turnês extraordinárias: música de improviso; eletroacústica ao vivo; jazz e fusion pioneiros; e um repertório central modernista-contemporâneo executado por orquestras como a London Sinfonietta e a Philip Jones Brass Ensemble. Entre as turnês memoráveis dos primeiros anos estão David Bedford e Lol Coxhill (1972), Mike Gibbs (1974), Les Percussions de Strasbourg (1975), os pianistas Ursula Oppens e Frederic Rzewski (1980) e a apologia ao minimalismo da Philip Glass Ensemble (também em 1975). Esta última foi uma turnê radical e influente, embora Glass se recorde de ter tocado para uma platéia de oito pessoas em um clube de música clássica em Newscastle.
A Network sempre incluiu música não européia, com turnês do Brotherhood of Breath (1975), a Delphonic Ensemble of Japan (1981), English Gamelan Orchestra (1983), Don Cherry’s Nu (1987), Women of Africa (1998) e Ryoji Ikeda (2000). Entre as turnês planejadas para 2004 está uma programação inovadora de hip hop árabe, além do Pearl Divers de Baráin e Dhafer Youssef, o extraordinário cantor e instrumentista de oud Dhafer Youssef.
Aquilo que hoje chamamos de world music tornou-se uma vertente principal, porém o enfoque na experimentação e colaboração continua. Como afirma Beverley Crew, as Turnês CMN permitem que os músicos realizem seus sonhos e muitas das propostas mais interessantes envolvem colaborações entre diversos estilos, continentes, mídias e tecnologias. Projetos concebidos com um componente visual ou dramático também vieram à tona. A Science Friction Band de Tim Berne inclui um fundo de cena do artista gráfico Stephen Byram; a turnê de março de 2005 da Britten Sinfonia fará uso da escultura (com uma nova peça de James MacMillan) e de uma apresentação teatral do concerto para violino de Deirdre Gribbin.
A tendência para colaborações desse tipo – tecnicamente ousadas, artisticamente inovadoras – é uma conquista da CMN? Crew diz que não. “Acho que é nosso trabalho corresponder aos sonhos dos artistas em vez de propor colaborações artificiais. Quando os artistas são simplesmente agrupados de maneira aleatória, o resultado raramente é gratificante ou interessante. Almejamos produzir projetos “orgânicos”, quer estejamos propondo as idéias ou respondendo a outras propostas. Nos últimos cinco anos houve uma mudança direcionada a produções tecnicamente mais complexas e mais visuais, liderada pelas ambições dos artistas e por um público cada vez mais exigente, que quer mais do que uma versão ao vivo do álbum.” Ela assinala que a maioria das turnês vai para espaços importantes, onde é possível realizar projetos sofisticados e ambiciosos. Contudo, sempre existem as turnês que apresentam ótima música que raramente se escuta em outros lugares. “Sinto um compromisso para com regiões que são ignoradas”, diz Crew.
Como funcionam as Turnês CMN? Antigamente, um comitê de especialistas, incluindo músicos e programadores, como Mark Russell e Tony Dudley-Evans, analisava a longa lista de propostas. Agora, Beverley Crew e Shu-Fang Wang são as únicas curadoras. Neste ano, elas receberam 120 propostas de turnês. Segundo as diretrizes, as Turnês CMN procuram projetos de qualidade internacional que ofereçam ao público uma experiência excepcional e memorável, e não projetos de amadores, artistas em começo da carreira ou em seus estágios iniciais, ou projetos de enfoque comercial que não precisam de financiamento. A análise de todas as propostas envolve mais pesquisa e assessoria e muitas vezes requer a habilidade de fazer combinações criativas para unir os artistas aos produtores certos. Quando as turnês são fechadas – são 11 para a temporada de 2004/2005 –, são apresentadas aos possíveis casas de espetáculos. Sempre no mês de outubro, as Turnês CMN enviam um pacote promocional com detalhes sobre as turnês, disponibilidade, especificações técnicas, etc. da nova temporada.
Cada turnê depende de quais patrocinadores escolheram se comprometer com os artistas e do tamanho do projeto. A Big Noise, por exemplo, turnê de novembro de 2003 que apresentou o Icebreaker, Orkest de Volharding e os VJs Hexstatic, usou grandes espaços, como o Brighton Dome e o Bridgewater Hall de Manchester; o projeto Terraplane Plus de Elliott Sharp, do qual fazem parte o guitarrista de blues Hubert Sumlin e o cantor Eric Mingus, pode tocar em espaços mais íntimos, como o fantástico Spitz de Londres e o The Lemon Tree, em Aberdeen. A Contemporary Music Network não é mais a única promotora de turnês desse tipo como era em 1971. Crew destaca que outras organizações, como o Asian Music Circuit, Jazz Services e novos consórcios como o MBM (Music Beyond Mainstream) também promovem música de ponta.
E para nos relembrar a Network do início da década de 1970, criada pela motivação de Morreau, então com 23 anos de idade, uma das turnês de 2004 traz a orquestra que participou da primeira temporada da CMN: a London Sinfonietta. Naquela época, eles tocaram Ligeti, Wolpe, Stravinsky e Schoenberg. Em março, a Sinfonietta tocará Cage, Varese e Reich, ao lado do trabalho do artista de drum and bass Squarepusher e do cineasta Chris Cunningham. Esta é uma versão renovada de um trabalho conjunto da Sinfonietta e da Warp Records que Crew escutou em Londres: “Lá estava um público realmente jovem indo à loucura com Nancarrow, Ligeti e Cage.”
John L. Walters é o fundador (ao lado de Laurence Aston) do periódico sobre CDs Unknown Public e escreve uma coluna musical regular, a On The Edge, para o jornal The Guardian. Changing Platforms (UP13), editado por Chris Heaton, é uma versão especial em CD duplo/livro de Unknown Public, que pode ser encontrada em certas lojas de música/livrarias especializadas por £30. Pedidos para entrega através de sales@unknownpublic.com e www.unknownpublic.com.
- Iain Ballamy, Organic and GM Food, (Feral Records)
- Arto Lindsay, Pride, (Righteous Babe)
- Mark Anthony Turnage, Blood on the Floor, (Decca)
- Kenny Wheeler, Angel Song, (ECM)
- Clotaire K, Lebanese, (Nocturne)
- Nina Nastasia Run to Ruin, (Southern Records)
- Ligeti: Hamburg Concerto; Double Concerto; Ramifications; Requiem (Teldec)
- Takemura, Nobukazu Child’s View: Hoshi No Koe (Thrill Jockey)
- Vinicius Vinicius, Cantuaria (Transparent Music)
- La Banda (Enja)
Para maiores informações, visite www.cmntours.org.uk
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