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Claudia Pucci
Diário de Bordo - International Residency – Royal Court
Descubra o que é fazer parte do grupo de dramaturgos do Royal Court em Londres através do Diário de Bordo de Cláudia Pucci, selecionada pelo British Council para estar entre eles durante três semanas.

E a saga continua...
Terceira semana

Segunda-feira começou com o projeto de pesquisa. Transcrevemos parte das entrevistas gravadas na semana anterior para servir de texto. Ramin era o diretor. Três atores. O tema era algo como “patriotismo”, e as entrevistas eram bem divergentes. Entre os ingleses propriamente ditos, um policial que diz que estrangeiro é “black people”, e que “não é culpa deles, mas do sistema”; um militante anti-guerras, anti-Bush, anti-Blair e anti-England que se instalou na frente do parlamento com faixas e bandeiras (com um discurso absolutamente delirante e coerente ao mesmo tempo); um muçulmano que odeia estrangeiros porque eles conseguem casas e dinheiro do governo – e que por ser muçulmano, não vota e justamente por isso diz que não é responsável por nada. E claro, um montante que fala do tempo, do senso de humor inglês, mas que não consegue formular uma postura clara – com a preocupação de serem politicamente corretos – em relação ao fato de Londres ter se convertido em um grande aeroporto internacional.

Interessante também foram as respostas dos estrangeiros. No próprio Royal Court, colombianos que lá trabalham por três anos e ainda não sabem falar inglês (uma delas lê o mesmo livro durante anos – algo do tipo “Como ser uma pessoa de sucesso”); um francês que, ao descobrir que seus entrevistadores eram cubanos, confessa: “os ingleses são uns chatos” ; um americano que trabalha na livraria do Royal Court e está felicíssimo de viver aqui, porque diz que os EUA nunca tiveram um presidente tão cretino (como se morar aqui pudesse lhe livrar da condição de ser norte-americano) – e por fim, confessa: Eu amo a velha rainha. E como não poderia deixar de ser, meus amigos da Finlândia e Suécia entrevistaram um jornalista brasileiro, que aqui trabalha em um restaurante e se encontrava sozinho e inconsolável. Tatuou a bandeira brasileira na canela, disse que o melhor que aconteceu na sua vida aqui foi comprar um DVD player e jura que vai voltar pra santa terra Brasilis em janeiro. E não parava de repetir “eu amo o meu país”. É engraçado como Londres, a cidade aparentemente menos patriota do mundo, é capaz de despertar sentimentos tão apaixonados em relação ao patriotismo alheio. Exceto pelos fundamentalistas, ninguém aqui se considera patriota (não cai bem...), mas o patriotismo inglês se expressa perfeitamente, na minha opinião, pela extrema valorização de tudo o que é feito aqui.

E não é só uma questão de dinheiro. Eu venho de um país que ainda está esperando permissão pra poder ser alguma coisa, que tem um potencial assustadoramente poderoso e auto-suficiente, mas que ainda não perdeu a postura servil das épocas coloniais. Aqui, é o oposto. Eles têm na bagagem anos e anos de domínio de poder, uma superioridade histórica que em si já torna especial os nascidos em terras da rainha (aliás, como pode uma cultura tão imperialista ter sido governado por tantas rainhas?..) Por tudo isso, percebi que amor pelo país, no caso do meu compatriota desolado, infelizmente não se traduz em amor-próprio. E é só isso que falta no Brasil.

E voltando para o Royal Court, essa semana ainda tivemos workshops e bate-papos com dramaturgos ingleses remonados, como Tom Stoppard, Martin Crimp e Stephen Jeffreys. Começo a perceber que é bastante comum entre os renomados dramaturgos ingleses deixar crescer o cabelo, de preferência branco, para ficarem mexendo nele compulsivamente enquanto falam. Um charmezinho, sabe? Bom, com eles trabalhamos em pouquinho o nosso ofício.

Na sexta-feira, finalmente, começaram os ensaios. O grupo de 16 dramaturgos foi dividido em dois, para que todos tivessem espaço para ensaiar. O lugar onde pacatamente tomamos nosso chá matinal antes de começar o dia foi completamente tomado por uma multidão de atores que – como toda multidão de atores – riam, falavam alto e se abraçavam. Os dramaturgos foram, pouco a pouco, se refugiando no balcão, apavorados pela possibilidade de terem suas palavras expostas. Elyse apresentou todo mundo a todo mundo e fomos para a sala de ensaio.

Bom, minha peça, como eu disse, ainda é uma mula-sem-cabeça, uma primeiríssima versão de uma intuição. Quero falar daquele sentimento que descrevi acima, sobre essa eterna espera para ser no futuro. As personagens são dançarinas, tipo “Sargentelli”, inspiradas por um documentário que minha amiga Kika está fazendo. (Detalhe: uma das atrizes escaladas para trabalhar comigo é cantora de rap aqui em Londres. Fiquei imaginando que samba isso ia dar. Enfim...) Vimos o filme, lemos o texto, e daí começou o trabalho. Foi ótimo. É impressionante como o método de trabalho dos diretores aqui é diferente – completamente racional. A diretora, Roxana, perguntava o por que de cada linha, e é claro que 98% das respostas eram “I dont´t know”. No começo, foi uma tortura chinesa, porque eu estava com uma relação de amor e ódio com o meu texto, mas aos poucos a coisa foi destravando. Foram três dias intensivos de ensaio, e assim levantamos várias possibilidades para a história, para as personagens, e pude respirar com a paz dos anjos novamente. Sei que vou ter um trabalho bestial quando voltar ao Brasil, mas agora já consigo saber do que quero falar e estou realmente empolgada para escrever. Não sei se todos os dramaturgos passam por essa calvário cada vez que vão escrever uma coisa nova. Mas agradeço muito a paciência da Roxana e a generosidade dos atores.

E assim foi-se mais uma semana. E o grupo, definitivamente, agora é inseparável. Estou bem feliz por não precisar compartilhar de mesquinharias, o que é relativamente comum numa situação como essa. Todos os dias, depois do árduo trabalho – e, por vezes, de peças teatrais que assistimos no final das tardes – sentamos nas famosas escadarias para aprofundar a experiência. Já se tornou um ritual. O teor da conversa é tão variável quanto o tempo londrino, mas em geral varia entre a pura idiotice e longas conversas maravilhosas sobre a vida. É, de longe, a melhor parte da residência, e acho que isso é o senso comum.

No sábado, alguns de nós fomos na Tate (galeria) e depois fizemos um longo passeio marginando o rio Tâmisa. Não canso de repetir que é a minha vista preferida daqui: os rios e as pontes. É um lugar em que ainda se pode respirar - e estava um dia lindo de sol e vento. De lá, fomos assistir a uma peça do Mark Ravenhil, “Citzenship”, que ainda está em processo, sobre a qual devemos opinar na próxima semana, quando vamos nos encontrar com ele.

No Domingo, voltei ao Globe para ver “Romeu e Julieta”. Eu absolutamente amei aquele lugar, e a forma como o grupo fala com a platéia durante a peça. É vivo. E para mim é muito engraçado ver a relação dos escritores daqui com Sheakespeare. Não deve ser mole ter o bardo na sua história. Há quem ainda tente seguir sua escola – David Hare, por exemplo – e aqueles que dizem algo como “morreu e tá enterrado.”. Mas para mim é maravilhoso estar de volta a esse lugar, porque a sensação é exatamente essa: Estar de volta, como se de certa forma eu pertencesse a aquele espaço-tempo. Romeu e Julieta foi uma das peças que me ensinou a amar o teatro, não pela visão romântica e imbecil que Hollywood nos enfia goela abaixo, mas pela subversão da brutalidade. E apesar das três horas de pé e de uma Julieta mais ou menos, foi uma tarde maravilhosa. E é muito interessante saber que, naquela época, essas mesmas tardes de Domingo no Globe eram destinadas a luta de animais – em especial ursos! E nas apresentações de Segunda-feira, o chão e o palco ainda estavam sujos de sangue. Nada poderia ser mais dramático.

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