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Cymbeline
Comentários da diretora Emma Rice

Famílias e Inimigos

Eu nunca havia assistido ou lido Cymbeline antes de concordar em produzi-la. Aceitei o convite porque a companhia de teatro Kneehigh é gentil por natureza, porque estranhamente sou fascinada pelo destino e também porque senti que este seria um desafio. Gostei do fato de ser uma peça raramente encenada, gostei do fato de que eu não tinha nenhuma idéia pré-concebida, gostei da peça ser conhecida como uma “peça-problema” e de que ninguém parece saber exatamente do que se trata. Eu pergunto,  “É uma comédia ou uma tragédia?”. “Uma história ou uma comédia pastoral?” “Hmmm” vem a resposta, “talvez um pouco de todas estas coisas.”

É uma peça que quebra todas as regras, que parece não se importar com o que é. Um material perfeito para a companhia de teatro Kneehigh!

Então li a peça, ou será que devo dizer, tentei ler a peça. A linguagem é rígida, densa e arcaica. Meu cérebro moderno e indolente brigou com a complexidade da trama e as longas descrições de emoção. Ninguém fala o quão difícil Shakespeare pode ser, que forma estranha sua obra tomou. Arregacei as mangas. Aos poucos a névoa se dissipou, as estórias emergiram e me chocaram! Não há nada de arcaico ou estranho nesta peça. É uma gloriosa mistura de contradições! É afiada e comovente, ridícula e de cortar o coração, uma novela e um épico. Alta comédia e ao mesmo tempo uma tragédia, um realismo mágico aninhado lado a lado com a intriga política e com uma natureza em conflito com o urbano. É na verdade, todas as coisas.

Mas para mim, Cymbeline é um conto de fadas. É sobre o lugar de onde viemos, quem somos e como achamos nosso caminho de volta para casa. É sobre família, mas não uma noção sentimental de família, não. É uma estória sobre famílias, como as conhecemos, marcadas, dissimuladas, surpreendentes e frustrantes. Cymbeline, um rei e um pai, está perdido no início. Ele está em meio à névoa. Sua primeira mulher está morta e seus dois filhos foram raptados quando ainda eram bebês. Sua filha sobrevivente, Imogênia, é um mistério para sua alma cansada. Ele está em um êxtase, onde nada pode crescer e nada pode regenerar. Ele é uma Bela Adormecida esperando por um despertar.

Fora do palácio há um mundo inteiro de estranheza. Um mundo onde os meninos aprenderam a caçar e a cantar, onde um pai adotivo dá mais amor e afeto do que o pai biológico jamais poderia imaginar em oferecer. Cá está um mundo onde a vida é dura e ameaçadora, onde ser um forasteiro significa nunca pertencer ao lugar. Eles são testados como muitos príncipes nos livros de estória, aprendendo através das dificuldades a serem independentes, justos, corajosos e a terem compaixão – virtudes essenciais a futuros líderes.

E então temos Imogênia: heroína, filha e mulher. Ela se esconde na floresta como Cachinhos Dourados, Maria (João e Maria) e Chapeuzinho Vermelho fizeram antes dela. Ela está procurando por seu marido mas obviamente encontra muito mais, seus irmãos, suas origens, encontra a si mesma. Ela é uma cor vívida para o monocromo de Cymbeline; ela é a irresistível força da mudança.

Esta notável estória descreve um longo dia no qual os demônios são enfrentados, verdades são reveladas e as ameaças são combatidas. Imogênia e Póstumo tem seu amor testado, o mal é derrotado, os meninos raptados retornam como homens para o conforto de suas camas da infância e Cymbeline desperta e se torna um vitorioso, um Rei e mais importante que tudo, um pai.

Agora amo esta estória. Amo o fato de que ela lentamente me tenha sido revelada em deliciosas camadas em technicolor de significado e deleite. É como uma colcha de retalhos de medos, sonhos e memórias. Eu quero que esta produção celebre a criança que existe em todos nós. Quero que ela nos lembre dos nossos medos noturnos e dos cobertores tricotados; de nosso primeiro amor; do chocolate quente num domingo chuvoso; das conversas nas altas horas da noite com nossos amados irmãos; de sermos jogados nos ares por nossos pais; de sermos carregados no colo depois de uma longa viagem de carro; de nos perdermos na praia e de sentirmos o cheiro do perfume de nossa mãe que nunca foi usado antes. Que a peça nos faça lembrar do começo de nossa percepção de imortalidade, de tristeza e de esperança em medidas iguais de intensidade. Então, dedico isto ao pertencer. À luta por quem você é e em quem você pode vir a ser. Ao se perder e se achar, aos pais e às mães e às famílias em toda a sua extraordinária, desafinada e confortante glória!

Emma Rice

Diretora de Cymbeline e Diretora Artística da companhia de teatro britânica Kneehigh.

Depois de alguns anos de total loucura e de frenesi criativo, Kneehigh surgiu como a maior força no teatro contemporâneo. Com seu estilo vívido, de teatro físico contador de estórias, a premiada companhia de Cornwall faz pela primeira vez uma montagem de Shakespeare.

Emma Rice e o escritor Carl Grose criaram uma nova adaptação da peça Cymbeline, raramente montada. Esta selvagem, vertiginosa produção faz o grupo Kneehigh dançar através de invasões, desentendimentos, intimidades e traições, com uma poesia de cortar o coração, música ao vivo e toques de loucura. Nunca a confusão foi tão prazeirosa e surpreendente.

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