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Claudia Pucci
Diário de Bordo - International Residency – Royal Court
Descubra o que é fazer parte do grupo de dramaturgos do Royal Court em Londres através do Diário de Bordo de Cláudia Pucci, selecionada pelo British Council para estar entre eles durante três semanas.

Segunda semana

Começamos a semana com Harold Pinter. Estávamos todos ansiosos por esse encontro. Todos com pelo menos uma pergunta inteligente, a pedido do Royal Court  - “Quanto melhor a pergunta, melhor a resposta”…Eis que ele chega, acompanhado da esposa. Parecia mais nervoso que todos nós juntos. Tomou um copo de vinho branco e olhou para nós, Internacional Playwrighters, a espera de algo. Logo que o álcool correu pelo sangue, as coisas fluíram. A conversa girou entre o ato de escrever, política, personagens que se apresentam quando você lhes abre a porta. Sobre a responsabilidade que nós, dramaturgos, temos, em pensar não só em nós mesmos, mas também em outras pessoas. Muito também se falou do que está passando no mundo, nos problemas da guerra, e Mr. Pinter despede-se de nós com a seguinte observação: “Os americanos sabem quantos celulares são vendidos no Iraque, mas não têm idéia do número de mortos que essa guerra está fazendo”. Ele está seriamente preocupado com tudo isso, portanto toda a discussão foi regada de teor político. A guerra, por aqui, é um assunto em bastante evidência, assim como as críticas à política de Tony Blair.

Achei interessante também saber de suas crises criativas, porque eu estou passando exatamente por isso (o que não é nenhuma novidade para qualquer um que queira criar alguma coisa). Simplesmente não consigo olhar para a minha peça, e estou começando a pensar que ela é só um degrau para outra peça que ainda está por ser escrita. Ao final da terceira semana, vamos trabalhar com atores, e eu não tenho a menor idéia do que fazer. Sinceramente, às vezes eu me sinto como um clown aqui, tentando explicar em inglês e mímicas o que eu não entendo ainda nem na minha língua natal. Conversei com Roxana, a diretora que vai trabalhar comigo, e chegamos a uma solução bastante conhecida no Brasil: Vamos improvisar. Não é fácil baixar o meu nível de auto-exigência, nem a raiva por não ter conseguido trazer alguma coisa mais acabada, mas paciência, é o que temos. Espero poder dizer coisas boas sobre essa experiência nos futuros relatos.

Mas voltando ao Royal Court, durante a semana também os encontramos com outros dramaturgos, como David Hare, Simon Sthepens e April de Angelis, e diretores como Dominic Cooke e Katie Michell. Fomos, pela primeira vez, ao Nacional Theatre, um grande complexo com muitas salas e grandes produções. Nesse mesmo dia assistimos a “Iphigenia at Aulis”, uma mistura de tragédia grega e Pina Baush (é assim que escreve?)

Mas foi no dia seguinte que tive a tão esperada experiência: Conhecer o Globe Theatre. Infelizmente, não é o edifício original, porque esse foi completamente destruído em um incêndio que fez as ruas de Londres virarem rios de lavas. Apesar disso,  o novo teatro, uma reprodução do antigo Globe, nos dá a exata impressão do que deve ter sido a época de Shakespeare. A platéia parece abraçar os atores. Como na época Elizabetana, o espaço de frente para o palco não tem cadeiras, e as pessoas ficam de pé. É claro que essa foi a nossa experiência, e é claro que com 1,53 de altura eu não recomendo 3 horas de espetáculo sobre os próprios pés, mas era um momento tão querido que foi possível sobreviver. A companhia encenava “Medida por Medida” aos moldes da época do bardo, com muito humor e cumplicidade com a platéia. Era como um viagem no tempo, que só foi interrompida pelo som de helicópteros sobrevoando o teatro, que é apenas semi-coberto.

Depois de tudo, nos encontramos nos fundos do teatro com Mike Rylance, ator e atual diretor artístico do Globe, um homem profundamente sensível que me fez perceber, em pouco mais de 10 minutos de conversa, o por quê daquela noite ter sido tão especial – O Globe é repleto de alma e coração.

No dia seguinte, fomos assistir a outra versão, essa “moderna” de “Medida por Medida” no Nacional Theatre, com uma Companhia chamada Cumplicité – essa completamente diferente, cheia de projeções de vídeo que pintavam quadros no chão, às vezes interessantes, às vezes usadas em demasia.

Sinceramente, gostei mais da primeira versão, e isso foi o senso comum no grupo.

E voltando à residência, essa semana ainda fizemos um “projeto de pesquisa”, que em termos gerais consiste em percorrer as ruas de porte de um gravador e entrevistar pessoas.  E óbvio, em inglês. Fui com Katharina, from Alemanha,  para um mercado de rua em Brixton, um bairro basicamente negro (aqui tem disso) e muito diferente da área chiquérrima onde o Royal Court se situa. Para mim, foi uma

grande experiência. O foco da pesquisa era basicamente “patriotismo”, porque esse é um tema complicado por aqui. Vários ingleses são patriotas, mas não assumem, porque não é politicamente correto. Por aqui há muita intolerância com estrangeiros. É aquele probleminha básico e mundial: As pessoas vão atrás de empregos, viram mão-de-obra barata, não reclamam, não votam, ficam 100% do tempo ocupadas em ganhar dinheiro e cuidar da família. Como não se sentem em casa, não se sentem responsáveis nem confortáveis, vivem um futuro que está por vir, quando finalmente poderão estar em seu solo sagrado com suas economias de uma vida. A ilusão de sempre. Nossos “personagens” são: Uma senhora que nos virou as costas ao perceber que éramos do teatro, e não de Jesus ( e que o pequeno livro em nossas mãos eram caderno de notas, não Bíblias), um muçulmano fundamentalista que odeia estrangeiros e exilados políticos porque eles conseguem casas cedidas pela rainha. Falamos com vários iraquianos solitários no seu auto-exílio. Também vimos um protesto contra o governo da Jamaica para melhor segurança nas ruas (da Jamaica, obviamente), e montes de gente da Jamaica que estão aqui só para fazer dinheiro e morrem de vontade de voltar.

Finalmente, um cantor de rap filho de jamaicanos, nascido na França e cidadão do mundo, com 5 anos de Itália, sete de Londres e doido para sair daqui. Resumo da ópera,  Londres é um grande mercado de trabalho. Home não é a palavra que define o sentimento dessas pessoas. Pelo menos em Brixton.

Realmente, às vezes não é fácil estar aqui. Nada é de graça. Falta amparo. Mas às vezes algo acontece só para contrariar essa má expectativa. Certo dia, tomada por um ataque de saudade, estava em um cibercafé, teclando e chorando, quando um homem sentado à minha frente me estendeu um lenço. Foi um momento muito precioso, porque percebi que não estava só chorando de saudade, o que eu sentia era a falta de algo que encontrei naquele lenço e em um olhar de cumplicidade, como o de quem compartilha a dor da distância. Me lançou um sorriso tímido, quase pedindo desculpas por invadir meu momento de íntimo pranto num lugar tão público, e essa foi a melhor medicina – assim como o clima de Londres, meu tempo virou.

Simples assim.

Depois desse dia, resolvi parar de esperar que a cidade me mostrasse a cara, e passei de dramaturga a arqueóloga. Por isso, no sábado, fui andando novamente até o Globe debaixo de um sol escaldante (para padrões londrinos, é claro). Fui procurar uma Londres que eu reconheço em mim desde criança sem saber por que. Fui a uma exposição sobre Shakespeare, e procurei ouvir do bardo onde estão os sentimentos. Aproveitei para visitar os escombros do Rose Theatre, teatro contemporâneo ao Globe, que agora encontra-se debaixo de uma construção de puro concreto. Uma coisa horrível. A rosa e o concreto. Se um dia puder encontrar Drummond em algum plano extra-terreno, vou dizer a ele que encontrei a perfeita materialização do seu poema.

No dia anterior, mini-férias. Fomos para Brighton, uma praia sem areia e muitas pedrinhas redondas. Estávamos todos semi-mortos e passamos o dia estendidos no sol, os mais corajosos (eu fui corajosa) pularam na água gelada. Um bom dia para fazer absolutamente nada. Um bom dia para pensar. E eis que surge Apoorva, amigo indiano da residência, numa praia inglesa, com um CD de bossanova. Juro que era muito estranho ouvir bossanova numa praia de pedrinhas...Mas foi bom voltar pra casa naquele momento.

A música, aliás, é uma das minhas coisas preferidas por aqui. A música das estações de metrô, a música das pontes sobre o Tâmisa...A sensação de andar à beira do rio com a cidade iluminada, voltando do teatro, rir com meus novos amigos e passar pela ponte ouvindo um violão e o vento no rosto, voltando para a casa que aqui construímos juntos. E depois, sentar nas escadarias do Royal Albert Hall, o único lugar em que podemos beber e morrer de rir sem atrapalhar a disciplina alheia. Sobrevivemos juntos a essa segunda semana, sem fofocas, problemas, crises nem ressentimentos. Pode parecer anti-dramático, mas para mim é essencial. E juro que é difícil trabalhar de noite sabendo que lá fora todos estão conversando e bebendo mesmo que seja uma cerveja horrível (o que é bem comum por aqui)

Domingo, enfim, fui para uma feira em Canden Town, que para os padrões paulistas é uma mistura de Vila Madalena, Galeria do Rock e Mercado Mundo Mix (sim, é possível...) Outra(s) face(s) dessa cidade gigante. Uma barraquinha vendia artesanatos indígenas from Brasil. E num bar supostamente cubano (é impressionante como eles amam Cuba por aqui), ficamos ouvindo Guantalamera. O mais engraçado é que junto comigo estava Cheddy, from Cuba, feito criança num parque. Falamos muito sobre os problemas e contradições do sistema cubano, da falta de ar e do amor que eles sentem por lá. Amor e ódio. Mas isso é um tema para outro dia.

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